Com movimento reduzido a 10% durante a pandemia, ainda é lenta a recuperação do transporte de passageiros

Com movimento reduzido a 10% durante a pandemia, ainda é lenta a recuperação do transporte de passageiros

Crise no setor evidenciada por pedido de recuperação judicial da Planalto Transportes afeta empresas do pequeno ao grande porte, apontam gestores do ramo

pedido de recuperação judicial da Planalto Transportes – uma das maiores empresas do ramo no Estado, autorizado pela Justiça na semana passada, expôs ainda mais a crise pela qual enfrenta o transporte rodoviário de passageiros intermunicipal e de longa distância. O setor foi um dos mais impactados pelas restrições devido à pandemia de coronavírus, e, apesar do avanço gradual da vacinação, ainda tem chão pela frente até recuperar os números anteriores à crise sanitária. 

Para o coordenador de tráfego e consultor de transporte de passageiros João Henrique Poppi, o caso da Planalto, cujo endividamento estimado chega a R$ 200 milhões, não é isolado e ainda deve bater à porta de muitas empresas Brasil afora, do pequeno ao grande porte. Um exemplo é a Viação Cidade do Aço, empresa também tradicional e septuagenária do Estado do Rio de Janeiro, que entrou com pedido de recuperação judicial em julho.  

Somente no Rio Grande do Sul, segundo a Associação Rio-Grandense de Transporte Intermunicipal (RTI), a demanda de passageiros caiu para 10% no auge das restrições sanitárias, quando os ônibus podiam transportar no máximo 20 pessoas. Linhas e horários foram enxugados e funcionários foram demitidos na tentativa de conter os custos de operação. 

— Tivemos a maior parada da história, com restrições sendo impostas da noite para o dia. Foi um golpe muito forte. O sistema praticamente pereceu e as rodoviárias ficaram sem ninguém — afirmou o presidente da entidade, Hugo Eugênio Fleck, que também é presidente da Viação Ouro e Prata.  

Na avaliação do presidente da Associação Gaúcha de Pequenas e Médias Empresas Transportadoras de Passageiros (AGPM), Ernani Kahmann, a situação atinge em cheio as empresas menores que atuam no interior do Estado. Ele também é diretor-presidente da Expresso Sinimbu, de Santa Cruz do Sul. Kahmann acredita que muitos horários não serão retomados. 

—  As empresas estão descapitalizadas, é sufoco total. Cerca de 70% paralisaram linhas no Interior e não tem expectativa de voltar. Fica difícil sobreviver — diz. 

Na Expresso Caxiense, o diretor-executivo Nelson Ribeiro comenta que a situação desencadeada pela pandemia é o pior momento já enfrentado nos mais de 80 anos de atuação da empresa. A transportadora tem como carro-chefe a linha que liga Porto Alegre a Caxias do Sul. O número de viagens no trecho chegou a ser reduzido de 32 para 20.  

Passado o período de limitações mais severas, porém, os gestores do ramo avaliam que a recuperação ainda é muito lenta e que são poucas as perspectivas de melhora no cenário atual. Ribeiro pontua que houve um respiro no mês de julho, mas ainda muito distante da operação anterior. Com a leve alta, a demanda de passageiros na Caxiense subiu de 50% para 60%.  

Segundo o diretor-executivo, a situação já vinha ruim e com a pandemia “ficou pior ainda”. Dentre os fatores, ele cita o desemprego, a economia como um todo, e os aplicativos clandestinos competindo com as empresas regulares.  

Na rodoviária de Porto Alegre, principal terminal do Estado, a movimentação média atualmente gira em torno de 3,5 mil passageiros por dia. Antes da pandemia, esse número chegava a 15 mil. Giovanni Luigi, diretor de operações da Veppo, empresa que administra a estação, diz que a situação é “dramática” e que apesar da vacinação progredindo, o movimento “continua terrível”.  

Segundo dados do Departamento Autônomo de Estradas de Rodagem (Daer), o sistema regular de linhas de longo curso transportou 5,8 milhões de passageiros até o momento em 2021. No ano passado, foram 13 milhões, número bem abaixo dos 33 milhões transportados em 2019.  

A estimativa é de que a pandemia tenha provocado queda de 50% a 80% na demanda das empresas de transporte do setor como um todo, seja municipal ou interestadual. Junto dela, as novas plataformas de transporte estreitaram a disputa por passageiros. Muitas pessoas acabaram optando por outros meios não regulamentados, como os aplicativos e as caronas. 

Além disso, é unânime entre os gestores ouvidos que as gratuidades – que são asseguradas pela Constituição, encarecem o serviço e o preço final da passagem.  

—  Quem paga são os demais usuários do sistema — afirma Kahmann. 

O novo quadro imposto pela pandemia, segundo o consultor João Henrique Poppi, força as empresas tradicionais a remodelarem a operação, buscando alternativas. Uma delas é ocupar o bagageiro dos ônibus para o transporte de encomendas, demanda que tem crescido com a alta das vendas pela internet e por gigantes como Mercado Livre e DHL. A lógica é aproveitar rotas já consolidadas. 

— O transporte rodoviário por ônibus vai continuar sendo o carro forte do país. Muitas empresas começaram a readequar a malha, com melhor aproveitamento de frota e de usuários para ajustar a demanda. Foi um período de “oportunidade” para aprimorar a operação — avalia Poppi. 

Outro caminho a ser percorrido é o de recuperar a confiança dos passageiros. E para isso as empresas têm investido nos protocolos de segurança e também em novas tecnologias, a exemplo de soluções lançadas pela Marcopolo para a biossegurança dentro dos ônibus. Segundo Fleck, neste momento seria importante também o apoio governamental para a retomada, estimulando o uso do ônibus como meio de transporte. 

Fonte: Diário Gaúcho

Publicado por Soluções Transportes

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